15/11/2010
ESPAÇO ABERTO
Ter consciência de quê?
O Dia da Consciência Negra foi estabelecido pelo projeto lei número 10.639, no dia 9 de janeiro de 2003. A data de 20 de novembro foi escolhida para lembrar a morte de Zumbi, ocorrida no ano de 1695, líder do Quilombo dos Palmares - personagem histórico que representou a luta do negro contra a escravidão no período do Brasil Colônia. Mas precisamos ter consciência de quê? Que, mesmo velada, a discriminação às minorias ainda é grande no Brasil? Que ‘‘é mais fácil desintegrar um átomo que um preconceito’’, conforme dizia Albert Einstein?
Essa poesia satírica publicada em ‘‘O Monitor Campista’’, em 1888, reflete a mudança de mentalidade que já ocorria na época: ‘‘Fui ver pretos na cidade, que quisessem se alugar. Falei com essa humildade: - Negros querem trabalhar? Olharam-me de soslaio, e um deles, feio cambaio, respondeu-me arfando o peito: - Negro, não há mais não: Nós tudo hoje é cidadão [...]’’. Que embora o negro do poema tivesse categoricamente afirmado ‘‘nós tudo hoje é cidadão’’, a cidadania era algo desconhecido dos negros convertidos em ‘‘homens livres’’ pela Lei Áurea e dos libertos de um modo geral?
Ter consciência de que ‘‘a superação plena das desigualdades raciais no Brasil ainda é um sonho a ser conquistado e não serão resolvidas apenas pela adoção de cotas nas universidades públicas’’, como assevera o presidente da Fundação Cultural Palmares, Zulu Araújo?
Que os negros africanos colaboraram muito, durante nossa história, nos aspectos políticos, sociais, gastronômicos e religiosos de nosso país? Ter consciência de que os negros constituíram praticamente sozinhos, as bases deste Brasil, e hoje somos mais da metade da população. Temos direito, portanto, ‘‘de exigir do segmento não negro o pagamento de parte desses débitos, já que o desrespeito moral, as humilhações aos nossos antepassados jamais poderão ser reparados’’, conforme assevera a deputada Helena Barros Heluy?
Que o ‘‘racismo cordial’’ é verificado por meio de ‘‘brincadeiras’’, ‘‘sem a intenção de ofender ninguém’’, mas com grandes consequências, relacionada à intensa discriminação e exclusão das pessoas negras da sociedade? Que ter consciência negra é compreender que em um país miscigenado igual ao nosso, devemos ter orgulho de sermos brasileiros, o que é muito mais importante do que sermos índios ou brancos, ou negros? Parafraseando Martin Luther King, eu também tenho um sonho: ‘‘Que começaremos finalmente, a ditar nossos próprios passos e pavimentar o caminho de liberdade’’.
Que o dia 20 de novembro seja de muita festividade, mas também de reflexão, sobre a inserção do negro na sociedade brasileira, como modo de reduzir o racismo e a discriminação. Diz Matilde Ribeiro, Ex-ministra da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir): que esta data seja não só de festividades, mas que ‘‘renove nossas energias para continuarmos nossa trajetória para conquista de direitos e igualdade de oportunidades’’, porque a luta pela liberdade dos negros jamais cessará.
MARIA S. C. CARVALHO é professora, pesquisadora e psicopedagoga em Londrina
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário